
Tinha um aluno que não saía da minha cabeça.
Ele chegava cedo, sentava na primeira fileira, abria o caderno com a seriedade de quem tem muita coisa a aprender. E dormia. Não era o sono dos desinteressados. Era o sono de quem passou a noite inteira dentro de uma tela e não encontrou a saída.
Eu ficava olhando para ele ali, cabeça tombada sobre o caderno aberto, e pensava nas duas coisas ao mesmo tempo: no que ele estava sonhando naquele momento, e em quais sonhos ele havia trocado para ficar acordado até de madrugada.
Essa imagem não me larga. Não é por ele especificamente, sabe? Mas pelo que ele representa. Porque não é apenas um adolescente. É uma geração inteira. E às vezes me pergunto, com algum desconforto, se não somos todos nós.
A correnteza não avisa quando começa
Em 2004, a pesquisadora Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, começou a medir algo que ninguém havia documentado com tanto cuidado antes: quanto tempo, em média, uma pessoa conseguia ficar concentrada numa única tarefa antes de mudar de assunto.
O número era de 2 minutos e meio. Em 2012, depois que os smartphones se espalharam por quase todo lugar, ela repetiu o estudo. Tinha caído para 75 segundos. E havia ainda outra descoberta, mais pesada: depois de qualquer interrupção, o cérebro humano leva, em média, 23 minutos para recuperar o nível de concentração que tinha antes.
Vinte e três minutos para recuperar o que uma notificação destruiu em menos de um segundo.
Em novembro de 2017, Sean Parker, um dos fundadores do Facebook, disse em público o que a indústria sabia há anos: “Nós exploramos uma vulnerabilidade na psicologia humana.”
Não foi um descuido. Foi uma decisão de produto. O scroll infinito, a curtida que aparece, a notificação calibrada para chegar no momento certo. Tudo construído para que você não consiga parar de olhar.
Você sabe como é não conseguir parar de olhar.

O que você encontraria se ficasse parado um pouco mais
Não estou falando só dos meus alunos. Estou falando de uma correnteza.
Ela não avisa quando começa a te levar. Não tem barulho nenhum, não tem sinal, não tem momento em que você decide ser arrastado. Você pega o celular por dois minutos. Cinco minutos passam. Uma hora some. E o sonho que você ia começar a perseguir ainda está ali, na margem, esperando enquanto a corrente te leva para outro lado.
Quando você olha pro relógio, passou uma hora. Quando você olha pro ano, passou um sonho.
A distração digital não rouba o foco de uma vez. Não. Ela vai tomando em pequenas quantidades que você mal percebe.
O foco virou raridade no mundo que mais precisava dele
Cal Newport, professor de ciência da computação em Georgetown, chama o que estamos perdendo de “trabalho profundo“: a capacidade de se concentrar, sem interrupção, numa tarefa que exige o que você tem de melhor. Ele diz que essa habilidade está ficando cada vez mais rara. E ao mesmo tempo, cada vez mais valiosa. Rara e valiosa. Ao mesmo tempo.
O problema não é a tecnologia em si. O problema é que a tecnologia foi desenhada para o engajamento. Engajamento quer você dentro, rolando mais um pouco, clicando mais uma vez.
Crescimento quer o oposto: que você saia, que você suporte o desconforto de criar algo que ainda não existe, que você fique com a mesma ideia por tempo suficiente para ela aprofundar.
Criar é lento. Fica feio antes de ficar bonito. E você vai querer largar no meio, porque o algoritmo vai estar te chamando com algo muito mais fácil do que aquilo que você estava tentando construir.
Nenhum algoritmo vai te mandar uma notificação quando você terminar aquela página. Nenhuma curtida vai aparecer quando você entender alguma coisa difícil depois de horas tentando. Essas recompensas existem. Mas elas não piscam.

Volto sempre àquele aluno.
À cabeça tombada sobre o caderno aberto.
Há algo de honesto naquilo que me incomoda nessa imagem. Ele ao menos chegou. Abriu o caderno. Havia nele, mesmo exausto, um desejo de estar presente que a madrugada havia drenado. E me pergunto quantas vezes nós chegamos assim nos nossos próprios dias. Com o caderno aberto. Com a atenção em outro lugar. Sem perceber que dormimos.
A pergunta que essa imagem deixa não é sobre ele…
Quando foi a última vez que você ficou com uma coisa só, sem checar mais nada, sem dividir a atenção com nenhuma tela?
E o que estava nessa coisa toda, que você encontrou quando finalmente parou?
Encontre-me no Instagram @sourobisonsa e assine a newsletter do Leio e Cresço em leioecresco.com.
Toda semana escrevo sobre o que vivo e leio, para quem ainda quer pensar devagar num mundo que só corre.

Tinha um aluno que não saía da minha cabeça.
Ele chegava cedo, sentava na primeira fileira, abria o caderno com a seriedade de quem tem muita coisa a aprender. E dormia. Não era o sono dos desinteressados. Era o sono de quem passou a noite inteira dentro de uma tela e não encontrou a saída.
Eu ficava olhando para ele ali, cabeça tombada sobre o caderno aberto, e pensava nas duas coisas ao mesmo tempo: no que ele estava sonhando naquele momento, e em quais sonhos ele havia trocado para ficar acordado até de madrugada.
Essa imagem não me larga. Não é por ele especificamente, sabe? Mas pelo que ele representa. Porque não é apenas um adolescente. É uma geração inteira. E às vezes me pergunto, com algum desconforto, se não somos todos nós.
A correnteza não avisa quando começa
Em 2004, a pesquisadora Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, começou a medir algo que ninguém havia documentado com tanto cuidado antes: quanto tempo, em média, uma pessoa conseguia ficar concentrada numa única tarefa antes de mudar de assunto.
O número era de 2 minutos e meio. Em 2012, depois que os smartphones se espalharam por quase todo lugar, ela repetiu o estudo. Tinha caído para 75 segundos. E havia ainda outra descoberta, mais pesada: depois de qualquer interrupção, o cérebro humano leva, em média, 23 minutos para recuperar o nível de concentração que tinha antes.
Vinte e três minutos para recuperar o que uma notificação destruiu em menos de um segundo.
Em novembro de 2017, Sean Parker, um dos fundadores do Facebook, disse em público o que a indústria sabia há anos: “Nós exploramos uma vulnerabilidade na psicologia humana.”
Não foi um descuido. Foi uma decisão de produto. O scroll infinito, a curtida que aparece, a notificação calibrada para chegar no momento certo. Tudo construído para que você não consiga parar de olhar.
Você sabe como é não conseguir parar de olhar.

O que você encontraria se ficasse parado um pouco mais
Não estou falando só dos meus alunos. Estou falando de uma correnteza.
Ela não avisa quando começa a te levar. Não tem barulho nenhum, não tem sinal, não tem momento em que você decide ser arrastado. Você pega o celular por dois minutos. Cinco minutos passam. Uma hora some. E o sonho que você ia começar a perseguir ainda está ali, na margem, esperando enquanto a corrente te leva para outro lado.
Quando você olha pro relógio, passou uma hora. Quando você olha pro ano, passou um sonho.
A distração digital não rouba o foco de uma vez. Não. Ela vai tomando em pequenas quantidades que você mal percebe.
O foco virou raridade no mundo que mais precisava dele
Cal Newport, professor de ciência da computação em Georgetown, chama o que estamos perdendo de “trabalho profundo“: a capacidade de se concentrar, sem interrupção, numa tarefa que exige o que você tem de melhor. Ele diz que essa habilidade está ficando cada vez mais rara. E ao mesmo tempo, cada vez mais valiosa. Rara e valiosa. Ao mesmo tempo.
O problema não é a tecnologia em si. O problema é que a tecnologia foi desenhada para o engajamento. Engajamento quer você dentro, rolando mais um pouco, clicando mais uma vez.
Crescimento quer o oposto: que você saia, que você suporte o desconforto de criar algo que ainda não existe, que você fique com a mesma ideia por tempo suficiente para ela aprofundar.
Criar é lento. Fica feio antes de ficar bonito. E você vai querer largar no meio, porque o algoritmo vai estar te chamando com algo muito mais fácil do que aquilo que você estava tentando construir.
Nenhum algoritmo vai te mandar uma notificação quando você terminar aquela página. Nenhuma curtida vai aparecer quando você entender alguma coisa difícil depois de horas tentando. Essas recompensas existem. Mas elas não piscam.

Volto sempre àquele aluno.
À cabeça tombada sobre o caderno aberto.
Há algo de honesto naquilo que me incomoda nessa imagem. Ele ao menos chegou. Abriu o caderno. Havia nele, mesmo exausto, um desejo de estar presente que a madrugada havia drenado. E me pergunto quantas vezes nós chegamos assim nos nossos próprios dias. Com o caderno aberto. Com a atenção em outro lugar. Sem perceber que dormimos.
A pergunta que essa imagem deixa não é sobre ele…
Quando foi a última vez que você ficou com uma coisa só, sem checar mais nada, sem dividir a atenção com nenhuma tela?
E o que estava nessa coisa toda, que você encontrou quando finalmente parou?
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