LEIO & CRESÇO Robison Sá

Antes de cobrar, conquiste

Isso é o que acontece quando você cria vínculos antes de qualquer outra coisa...

Pedagogia do Vínculo. A Arte de conquistar primeiro e só cobrar depois para criar relacionamentos interpessoais duradouros.

Tem gente que entra numa sala e o silêncio que chega junto é de respeito. Tem gente que entra e o silêncio é de medo. E tem gente que, antes mesmo de entrar, já foi esperada.

Eu faço parte do terceiro grupo.

E isso não foi sorte.

Toda manhã, fico parado na entrada da escola. Não é protocolo, não é obrigação do cargo. É uma escolha. Um estudante chega e eu sorrio. Outro passa e recebe um aperto de mão. Outro ainda, aquele que os colegas chamam de rebelde, o que ninguém consegue “controlar”, me vê de longe e já abre um sorriso antes de chegar perto.

Esse estudante, que resiste a quase tudo, não resiste a mim. E eu sei exatamente por quê.

Porque eu o conquistei primeiro.

Esse se tornou o meu mantra:

Antes de cobrar, conquiste.

Antes de qualquer cobrança, antes de qualquer correção, antes de qualquer “você precisa mudar”, eu fui presença. Olhei nos olhos dele. Ouvi o que ele tinha a dizer sobre a vida dele, sobre o que gosta, sobre o que dói. Provei, no dia a dia, que me importo de verdade. E não foi como performance. Foi como escolha repetida.

Chamo isso de Pedagogia do Vínculo. Mas a verdade é que isso não pertence só à educação.

O que alguns dos meus colegas não entendem sobre aquele aluno

Ouço com frequência: “fulano é rebelde”, “ciclano não respeita ninguém”, “não adianta falar com ele”.

E eu olho para esses mesmos estudantes chegando até mim com um abraço. Recebo o aperto de mão daquele que “não respeita ninguém”. Vejo o que meus colegas não veem, porque fizeram algo diferente de mim, não necessariamente errado. Só diferente.

A diferença é que eu fui primeiro.

Fui primeiro na gentileza.

Fui primeiro no interesse genuíno.

Fui primeiro no gesto pequeno que diz: você importa antes de produzir qualquer coisa que eu precise de você.

Existe uma pesquisa conduzida por John Gottman, psicólogo norte-americano que passou décadas estudando relacionamentos, que mostra que a proporção entre interações positivas e negativas precisa ser de pelo menos cinco para um para que um relacionamento sobreviva ao conflito. Cinco momentos de conexão para cada momento de atrito. Quando você inverte essa conta, o atrito passa a definir o relacionamento inteiro.

Na escola, isso se traduz de forma crua: o professor que só aparece para cobrar vira sinônimo de cobrança. E quando chega a hora em que a cobrança seria legítima, o estudante já fechou a porta.

Por que o vínculo vem antes de tudo

Sou “chato” quando preciso ser. Corrijo, cobro, direciono. A educação exige isso às vezes, e fingir que não exige seria uma mentira bonita, mas inútil. Reservo esses momentos para quando são necessários de verdade, não para mostrar autoridade, não para preencher silêncio, não por hábito.

E sabe o que acontece nesses momentos, quando finalmente aparecem?

Os estudantes ficam tristes por ter me decepcionado. Não com raiva. Não na defensiva. Tristes. Porque a relação que construímos vale algo para eles.

Isso é o vínculo funcionando como realidade.

O filósofo Martin Buber escreveu, no início do século XX, sobre a diferença entre duas formas de se relacionar com o outro: a relação Eu-Tu, em que o outro existe como presença plena, e a relação Eu-Isso, em que o outro existe como função, como instrumento, como meio para um fim. Quando um professor olha para o estudante e vê “o aluno problema”, está numa relação Eu-Isso. Quando olha e vê uma pessoa com história, com medo, com algo a dizer, a relação muda de natureza.

O que Buber chamou de filosofia, eu aprendi no corredor da escola às sete e meia da manhã.

O que você pode fazer com isso agora

A Pedagogia do Vínculo não mora só na escola. Ela mora em qualquer lugar onde existe um ser humano na sua frente: no trabalho, no casamento, na amizade que esfriou, na conversa que você adia porque sabe que vai ser difícil. Em todos esses lugares, existe uma escolha que antecede qualquer palavra importante: você vai chegar como presença ou como demanda?

O passo concreto é simples de descrever e custoso de praticar. Antes da próxima conversa difícil que você precisa ter com alguém, pergunte a si mesmo: quando foi a última vez que estive presente para essa pessoa sem querer nada dela?

Se a resposta demorar para chegar, você já sabe por onde começar.

Ninguém resiste por muito tempo a quem genuinamente se importa. Isso não é ingenuidade. É o princípio mais antigo das relações humanas, redescoberto toda manhã no corredor de uma escola por um professor parado na porta.

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