LEIO & CRESÇO Robison Sá

Viver em Busca dos Sonhos Que a Alma Não Esquece

Há uma voz que não grita. Ela sussurra, e é exatamente por isso que a maioria nunca a ouve.

Silhueta de homem caminhando em estrada ao pôr do sol, representando viver em busca dos sonhos

Em junho de 1325, um jovem de 21 anos saiu da cidade de Tânger, no norte de Marrocos, montado num burro, sem nenhum companheiro. Havia estudado direito islâmico, crescido numa família de magistrados, tinha um futuro traçado com régua e esquadro. E deixou tudo para trás.

Não por impulsividade. Não por rebeldia. Por um sonho que ele não conseguia mais ignorar: chegar a Meca. Cumprir o Hajj, a peregrinação sagrada do Islã. A viagem, segundo seus planos, levaria dezesseis meses.

Ele levou vinte e quatro anos.

Esse homem era Ibn Battuta. Ao final da jornada, havia percorrido cerca de 117 mil quilômetros por mais de quarenta países, mais do que qualquer outro explorador antes da era do vapor. Mais que Marco Polo. Mais que Cristóvão Colombo. Não para conquistar território. Não para acumular riqueza. Para descobrir o que havia do outro lado de cada horizonte que se apresentava diante dele.

O que me assombra na história de Ibn Battuta não é a distância. É a decisão de continuar, repetida todos os dias por quase três décadas.

Caravana atravessando o deserto ao entardecer, representando a jornada de quem vive em busca dos sonhos

O medo de abandonar a segurança tem um nome muito parecido com sabedoria

Você já sentiu aquilo? Aquela voz que surge exatamente quando você está prestes a dar um passo diferente. Uma voz razoável, educada, cheia de argumentos sólidos. Você tem contas. Você tem responsabilidades. E se não der certo?

Essa voz não é sua inimiga. Ela só não sabe que existem perigos maiores que o risco. O perigo de chegar ao fim da vida e perceber que você escolheu a segurança, mas nunca escolheu a si mesmo.

Ibn Battuta sabia disso de um jeito que a lógica não ensina. Em Alexandria, ainda no início da jornada, ele encontrou um sábio chamado Sheikh Burhanuddin. O ancião o olhou e disse algo que ele carregou pelo resto da vida: “Parece-me que você é apreciador de viagens. Visite meu irmão na Índia, meu irmão na China, meu irmão no Sudão, e leve-lhes meus cumprimentos.”

Ibn Battuta nunca havia pensado em ir à China. Depois daquele encontro, foi.

Existe uma palavra árabe, rihla, que significa literalmente “a viagem”, mas que na tradição islâmica medieval carregava um peso muito maior: era o nome dado à jornada em busca de conhecimento sagrado. Ibn Battuta nomeou seu livro de memórias com esse título. Não era sobre os lugares. Era sobre o que a alma encontra quando se permite caminhar.

Joseph Campbell, séculos depois, chamaria isso de seguir sua bem-aventurança. A ideia de que existe um chamado específico para cada vida, e que ignorá-lo vai acumulando uma dívida que o tempo não perdoa.

O sonho que a alma não esquece não desaparece quando você o ignora. Ele fica mais pesado.

Viver em busca dos sonhos e o que você se torna no meio do caminho

Tem uma armadilha bonita nessa conversa toda sobre sonhos. A armadilha é achar que o ponto é o destino.

Ibn Battuta saiu para uma peregrinação de dezesseis meses e nunca mais foi o mesmo homem que deixou Tânger. Não porque chegou a Meca, chegou sim, e voltou seis vezes. Mas porque ao longo do caminho encontrou sultões e eruditos, foi nomeado juiz em Delhi, naufragou no Mar da China, perdeu amigos para a Peste Negra, enterrou a mãe e o pai sem poder estar presente. A viagem não foi um sonho cor-de-rosa. Foi a vida acontecendo em volume total.

Viver em busca dos sonhos não é uma promessa de que tudo vai dar certo. É um compromisso com a profundidade, com existir de um jeito que você não consiga fazer dormindo.

A neurociência confirma o que Ibn Battuta viveu no corpo: quando agimos em direção a algo que tem sentido para nós, o sistema dopaminérgico do cérebro se ativa na antecipação, muito antes da chegada. O que nos sustenta não é o troféu. É o movimento.

Guimarães Rosa escreveu que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” Não é apenas metáfora. É neurologia com alma.

Mãos abertas recebendo luz do sol, símbolo de propósito e viver em busca dos sonhos

A pergunta que vale mais do que qualquer resposta

Ibn Battuta voltou para Tânger em 1354, velho, cansado, transformado. O sultão marroquino pediu que ele ditasse tudo o que havia vivido. O livro resultante, a Rihla, tem mais de mil páginas.

Na última linha que ele ditou, não havia conclusão grandiosa. Havia apenas a descrição de um horizonte que ele havia atravessado. Como se o sentido não precisasse ser explicado. Como se quem viveu soubesse, sem palavras, que valeu.

Carrego uma pergunta há muito tempo. Não sobre destinos ou planos. Sobre aquela voz que sussurra no silêncio da madrugada, quando o barulho do dia finalmente para.

O que é que você sabe que precisa fazer, mas ainda não começou?

A estrada de Ibn Battuta começou num burro, sozinho, numa manhã de junho. A sua pode começar hoje, de onde você está, com o que você tem.

O que a alma não esquece, ela eventualmente encontra. A questão é quanto tempo você ainda vai fazer ela esperar.


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