
Era 27 de julho de 1656 e o ar em Amsterdã estava pesado, carregado com o cheiro de maresia e condenação. Um jovem de 23 anos caminhava pelas ruas sabendo que sua vida social, familiar e econômica tinha acabado de ser decretada morta.
Ele não foi apenas expulso; ele foi apagado. O Herem (excomunhão) lido contra Baruch Spinoza foi o mais severo já emitido pela comunidade judaica da época. “Maldito seja de dia e maldito seja de noite”, dizia o texto. Ninguém poderia falar com ele, ler o que ele escrevia ou ficar a menos de quatro côbitos de distância de sua sombra.
Naquele momento, Spinoza tinha o cenário perfeito para se entregar à paralisia. O medo do futuro, a tristeza do abandono e a incerteza da sobrevivência eram ingredientes perfeitos para o que hoje chamamos modernamente de “congelamento”.
Ele poderia ter passado os anos seguintes lamentando, hesitando, esperando o momento certo que nunca viria. Esperando a morte chegar de cabeça baixa, sem reação.
Mas se você quer entender como vencer a procrastinação, precisa olhar para o que Spinoza fez a seguir. Ele não travou. Ele mudou seu nome para Bento (o abençoado), alugou um quarto pequeno no sótão e começou a polir lentes de vidro para microscópios e telescópios.
Enquanto polia o vidro, inalando o pó de sílica que eventualmente mataria seus pulmões aos 44 anos, ele polia também uma das obras mais complexas e libertadoras da história humana: a Ética.
Spinoza entendeu algo que a neurociência moderna, como descrita por António Damásio em O Erro de Descartes, só confirmaria séculos depois: a razão não funciona sem emoção. E a ação não acontece sem Potência.
A procrastinação, na visão espinosana, não é preguiça. É uma queda na sua potência de existir.

Quando a tristeza paralisa a ação, como vencer a procrastinação?
Você conhece a sensação. Você tem um projeto importante — escrever aquele livro, lançar aquele produto, ter aquela conversa difícil —, mas acaba rolando o feed do Instagram por duas horas.
Nós costumamos nos chicotear quando isso acontece: “Eu sou preguiçoso”, “Eu não tenho disciplina”.
Spinoza diria que você está fazendo o diagnóstico errado.
Para ele, tudo na natureza possui um Conatus, um esforço inato para perseverar em seu próprio ser.
A pedra quer continuar sendo pedra; você quer continuar sendo você.
Quando agimos de acordo com nossa natureza, sentimos alegria (o aumento da nossa potência de agir). Quando algo externo nos oprime ou nos amedronta, sentimos tristeza (a diminuição da nossa potência de agir).
A procrastinação é, em essência, um afeto de tristeza. É o momento em que a sua potência de agir é reduzida por “paixões tristes” como o medo do fracasso, a ansiedade da crítica ou a comparação com o outro.
Quando você está paralisado, você está em um estado de “paixão passiva”. Você está sendo agido pelo mundo, em vez de agir sobre ele.
Gilles Deleuze, o filósofo francês que redescobriu Spinoza no século XX, chamava isso de efetuar a sua potência.
Para ele, a tristeza nos separa do que somos capazes de fazer. O erro, então, é achar que vamos conseguir agir através da culpa. A culpa é um afeto triste. E afetos tristes nunca, jamais, geram potência real. Tentar vencer a procrastinação se sentindo culpado é como tentar apagar um incêndio jogando gasolina.
A física da vontade humana
Spinoza não via a mente humana como um império dentro de um império. Ele a via sujeita às mesmas leis da natureza que governam as tempestades e as marés.
Se você quer sair da inércia, você precisa de uma física dos afetos.
A grande virada de chave da Ética é a seguinte: Um afeto só pode ser vencido por outro afeto mais forte e contrário.
A razão pura (“eu devo fazer isso”) raramente vence uma emoção forte (“eu tenho medo de fazer isso”). É por isso que saber o que precisa ser feito não é suficiente. Se fosse, ninguém fumaria e todos teriam abdômen definido.
Para Spinoza sair daquele estado de exilado e escrever sua obra-prima, ele usou muito mais que força de vontade. Ele substituiu o afeto triste do medo da solidão pelo afeto alegre da compreensão de Deus (ou da Natureza). Ele encontrou uma alegria na lapidação das lentes e das ideias que era mais forte do que o medo da morte.

Do conceito à prática: aprenda de vez a vencer a procrastinação
Então, jovem, como aplicamos a geometria dos afetos de Spinoza logo em sua segunda-feira de manhã, quando os fantasmas da semana já começam a lhe assombrar?
Não lute contra a procrastinação com punição. Lute com compreensão e substituição. Veja como:
- Faça uma auditoria dos afetos: Quando você travar, não se xingue. Pare e pergunte: “Qual é o afeto triste que está diminuindo minha potência agora?”. É medo? É tédio? Se a distração digital é o seu gatilho, vale a pena ler meu artigo Como recuperar o foco em um mundo de distrações para entender a mecânica disso.
- Use a Regra da Substituição: A razão sozinha não move montanhas, mas a razão apaixonada move. Encontre uma conexão alegre com a tarefa. Não escreva o relatório só porque seu chefe mandou ou a tarefa porque o professor solicitou (tristeza/obediência). Faça porque terminar isso te dará a liberdade de ir para casa mais cedo ou de dará a liberdade de fazer o que você gosta depois (alegria/liberdade).
- Aja para entender: Spinoza dizia que quanto mais entendemos a nós mesmos e a natureza, mais agimos. A ação gera clareza. Comece polindo uma pequena lente. Faça a menor tarefa possível. Esse princípio filosófico é a base do Crescimento Pessoal: A Incrível Regra do 1%. A alegria de concluir algo pequeno aumenta sua potência imediatamente.
Spinoza morreu cedo, pobre e sozinho, mas morreu absolutamente livre. Ele não deixou que o mundo externo ditasse sua capacidade de criar.
A sua potência de agir é o seu bem mais precioso. Não a entregue de bandeja para o medo.
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Para transformar essa filosofia em rotina, recomendo estas leituras complementares:
- A Regra dos 2 Minutos e o ritual invisível dos realizadores
- Aprenda a Vencer a Preguiça na Hora de Estudar
- Elimine Maus Hábitos com os Hábitos Atômicos
Se este mergulho na filosofia prática fez seus neurônios vibrarem em uma frequência mais alta, tenho um convite final.
Não procrastine a sua evolução.
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Com carinho,
Robison Sá.☕








